Congresso C2C 2018 – Moda & Têxteis

Por Alice Beyer Schuch – set/18

Nos dias 14 e 15 de setembro foi realizado o Congresso Cradle to Cradle em Lüneburg, Alemanha. Organizado pela Associação C2C, que está planejando o primeiro C2C LAB com 300 m2 a ser aberto em Berlim em 2019, o evento abordou fortemente a indústria têxtil como “um setor enorme e sujo e por isso com grande potencial para melhorias”!

“Devemos parar de pensar em como lidar com os resíduos.

Em vez disso, temos que desenvolver produtos sem resíduos”

comentou Donald Brenninkmeijer (Chefe de inovação da C&A) abrindo as apresentações. A empresa investiu fortemente em pesquisa e desenvolvimento junto a sua cadeia de suprimentos para poder lançar, em 2017, seus primeiros produtos certificados C2C (que chegam a custar 20% mais do que um item convencional). Ao perguntar a Donald se os produtos foram subsidiados pela venda dos demais produtos sem certificação, ele me confirmou que sim! Para oferecê-los em uma faixa de preço acessível, os investimentos indiretos (como P&D) não foram considerados e o mark-up reduzido. E o mercado reagiu positivamente: das 400.000 camisetas femininas produzidas, 75% foi vendido dentro de 3 semanas! No entanto, para Donald, há ainda um longo caminho a ser percorrido. O maior desafio atual se relaciona ao uso de energias renováveis, com apenas 10% dos fornecedores prontos neste sentido.

Mas a Cotton Blossom estava mais que pronta! A indústria confecciona os produtos de malha C2C da C&A (inclusive Brasil). A diretora Philomena John nos mostrou que, ao pensar de forma holística desde o início, as mudanças positivas vêm naturalmente. Para essa empresa vertical de apenas 14 anos, ser certificado C2C não foi muito difícil. “Começamos com 40 máquinas de costura, mas sempre atentos ao (re)uso da água, treinamento de pessoal e empoderamento feminino”. Para C2C “o processo de tingimento foi o mais desafiador, permitindo apenas 5 cores na primeira fase”, disse Philomena. Hoje há inúmeras opções em cores, materiais e texturas, bem como impressões, bordados e insumos diferentes disponíveis para a produção das 1,5 milhões de peças mensalmente.

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Mela Wear and circular.fashion during C2C Congress 2018. Pic: @Yunus Hutterer

C2C também está no DNA de startups! A marca Mela Wear de meu colega Henning Seidentopp, nascida em 2014, compartilhou um incrível entusiasmo por uma boa moda. Hoje eles estão presentes em cerca de 400 lojas e alcançaram receita de 1 milhão de Euros. O standard C2C Gold é a base para o desenvolvimento de cada item – de vestuário básico a mochilas e agora tênis – embora a marca não considere certificações devido a restrições financeiras e demanda do mercado. Além disso, para Mela Wear o conceito C2C é fortemente relacionado com a materialidade, mas falho ao considerar salários (living-wages ao invés de salários mínimos legais). Por esta razão, a marca adotou um sistema de bônus, enviando aportes financeiros diretamente a todos os trabalhadores envolvidos. A visão de Mela Wear pode ser verificada no livro publicado recentemente “Sustainable Fashion ” lado a lado de grandes corporações.

A plataforma digital circular.fashion de minha amiga Ina Budde, também trabalha na melhoria da indústria – conectando todo o processo, desde material e insumos, estratégias de design, até a geração de um código identificador de cada produto. Este “circular.fashion.ID” contém informações para o consumidor sobre transparência e rastreabilidade, bem como sobre o parceiro de reciclagem específico para a fase final de uso de cada peça. Outras etapas intermediárias também podem ser consideradas como o design para a longevidade através da multifuncionalidade, bem como manutenção e reparo, estratégias de re-design, ou até mesmo conectar-se a parceiros de aluguel/biblioteca de roupas.

E onde tudo isso inicia? Para Philomena John, as marcas são as grandes responsáveis pela mudança. Quando eu quis saber por que as marcas buscariam essas melhorias, Sanne van den Dunge, da EPEA da Holanda (agencia que acompanha o processo de certificação) comentou que na maioria dos casos elas se identificam com o conceito. E deve ser mesmo uma abordagem de dentro para fora, como o caminho é longo e cansativo.

“No entanto, com a aplicação do conceito, vem a diferenciação no mercado e a oportunidade de negócio” finalizou Sanne.

Mesmos assim, parece que a responsabilidade não está clara. Em conversa informal com as marcas, pude identificar que regulamentações talvez pudessem acelerar o processo. Algo como uma “taxa de externalidades” sobre processos convencionais foi sugerido. Mas como fiscalizar o processo? Como fomentar essa conversa política socioambiental em um país como o Brasil? Dr Janez Potocnik (ex-Comissário da UE e agora co-presidente do painel de recursos da ONU) me respondeu que no nosso país, como os recursos inda são “baratos”, a abordagem não pode ser a mesma que na Europa. É necessário um governo aberto, que apresente argumentação suave, mas consciente. Enfim…

Indiferente do tamanho das empresas, os passos para a implementação do conceito C2C parecem ser semelhantes em todos os casos. Prof. Friederike von Wedel-Parlow (fundadora do Beneficial Design Institute e minha diretora do Mestrado “Sustainability in Fashion”) resumiu esse passo-a-passo:

  • Inicie a mudança com um produto comercial bem conhecido com grande impacto e complexidade reduzida;
  • Trabalhe com uma empresa parceira que seja o mais vertical possível para facilitar o desenvolvimento de todo o processo, e conecte- se a diferentes especialistas, de diferentes áreas;
  • Certifique-se de que se pode ter acesso a informações sobre todos os materiais e componentes necessários. Evite também, na medida do possível, materiais incompatíveis e acabamentos desnecessários;
  • Pense sobre a possível reutilização do produto desde o início de seu desenvolvimento;
  • Não comprometa o design, pois qualidade e estética são essenciais;
  • Seja criativo. Isso irá ajudar a desenvolver novas soluções, passo-a-passo;
  • Compartilhe! A troca de informação trará benefícios a longo-prazo, reduzindo os riscos, economizando custos e apoiando a solução de problemas futuros.

E nós não devemos esperar o momento perfeito! Agora parece o momento ideal para essa guinada.

“Faça o que puder, com o que você tem, de onde você está” (Theodore Roosevelt).

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Alice Beyer Schuch é consultora em moda circular na Cirkla Modo! Brasileira que mora na Alemanha, Alice atendeu ao congresso Cradle to Cradle em nome do Circular Economy Club onde é mentora em circular fashion.

Pensando em como a circularidade pode agregar valor a seu projeto? Entre em contato!

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